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Cerâmica tapajônica revela história ancestral de Santarém e inspira novos projetos turísticos Autor: Katrine Bentes/CCOM

Cerâmica tapajônica revela história ancestral de Santarém e inspira novos projetos turísticos

Katrine Bentes
Publicado em - Atualizado
Visita técnica da Semtur ao Ateliê Arte Tapajônica destaca a importância da preservação cultural e histórica do município.

A cerâmica tapajônica é um dos mais importantes vestígios arqueológicos da Amazônia, revelando aspectos do cotidiano, das crenças e da organização social dos povos Tapajó que habitaram a região de Santarém séculos antes da colonização europeia. Para conhecer melhor esse patrimônio e fortalecer iniciativas ligadas ao turismo histórico e cultural, a Prefeitura de Santarém, por meio da Secretaria Municipal de Turismo (Semtur), realizou na quarta-feira (11) uma visita técnica ao Ateliê Arte Tapajônica.


O espaço, localizado na Rua Beija-Flor, nº 100, no bairro Jardim Santarém, produz peças artesanais e promove oficinas e cursos sobre técnicas tradicionais de modelagem em cerâmica. Tornou-se referência para quem deseja aprender a arte do barro ou adquirir peças inspiradas na tradição amazônica milenar. Informações podem ser obtidas pelo telefone (93) 99152-4365 ou pelo Instagram @artetapajonica.


O ateliê é conduzido pelo ceramista Jefferson Paiva, da terceira geração de uma família dedicada ao ofício. Graduado em Arqueologia pela Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA) e atualmente mestrando no Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Sustentável do Museu Paraense Emílio Goeldi (PPGDS/MPEG), Jefferson se apaixonou pela cerâmica ainda na infância, produzindo brinquedos de barro. Com o tempo, esse interesse se transformou em profissão e em área de pesquisa.

Obras do artesão são inspiradas na cultura indígena.
Obras do pesquisador e artesão são inspiradas na cultura indígena.Foto: Katrine Bentes/CCOM

Jefferson Paiva é especialista em sete estilos cerâmicos: Tapajônica e Konduri (oeste do Pará), Marajoara (Ilha do Marajó), Maracá e Aristé-Cunani (Amapá) e Guarita (Amazonas). A partir dessas referências, desenvolve peças contemporâneas inspiradas na cultura indígena, chamadas de cerâmica Tapajoara.

Durante a visita, o secretário municipal de Turismo, Emanuel Júlio Leite, conheceu o trabalho do ceramista e destacou a importância da arqueologia para compreender a história das populações indígenas da região.

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Entre os projetos apresentados por Jefferson está a criação de um Museu Comunitário da Cerâmica Tapajônica. A iniciativa visa reunir réplicas das peças, tornar o patrimônio mais acessível e promover educação patrimonial e valorização cultural.

“A ideia é que as pessoas possam observar essas peças e se conectar com sua ancestralidade. Isso também fortalece o turismo e valoriza nossa cultura. Além disso, visitantes de outras regiões poderão conhecer a história de Santarém por meio da cerâmica. A cidade é o berço de uma civilização incrível que precisa valorizar suas raízes, e ainda faltam espaços para divulgar essas peças. Por isso, estou trabalhando para que esse projeto saia do papel e se torne realidade”, afirma Jefferson.

“No espaço que estou planejando, as pessoas poderão aprender a fazer cerâmica. Percebo que muitas também buscam essa arte como uma espécie de terapia, e acredito que a proposta terá muito sucesso”, acrescenta.

Quero que essa tradição continue depois de mim.. Foto:
"Quero que essa tradição continue depois de mim", destacou Jefferson Paiva. Foto: Katrine Bentes/CCOM

Ele busca ainda incentivar novos ceramistas na região. “Meu sonho é ver mais pessoas produzindo cerâmica. Quero que essa tradição continue depois de mim. Aprendi com meus pais e estou repassando esse conhecimento às minhas filhas, além de querer compartilhá-lo com outras pessoas que também têm interesse. É um legado que pertence não só à nossa família, mas à cultura do povo Tapajó”, conclui.

Arqueologia e memória ancestral

Estudos arqueológicos indicam que a área onde hoje está Santarém já era ocupada por povos indígenas muito antes da colonização europeia. Embora ainda não existisse o conceito de cidade, os vestígios apontam para grande concentração populacional, com conhecimentos técnicos, artísticos e culturais avançados.

“Por isso, muitos pesquisadores consideram Santarém uma das áreas de ocupação humana mais antigas do Brasil”, afirma o arqueólogo Jefferson Paiva.


As peças tapajônicas encantam pela riqueza de detalhes, pelas decorações elaboradas com pinturas e relevos, e pelas representações antropomorfas (figuras humanas) e zoomorfas (figuras de animais) como jacarés, serpentes, rãs, macacos, urubus-reis e outras.


Entre os objetos mais emblemáticos estão os vasos de gargalo, com abertura semelhante à de uma garrafa e braços alongados decorados com essas criaturas, e os vasos de cariátides, em formato de taça, divididos em duas partes: a inferior, sustentada por figuras femininas, e a superior, adornada com uma mistura de seres da fauna estilizada.

Réplicas ampliadas desses exemplares podem ser conferidas na Praça Barão de Santarém.

Jefferson destaca que existem pelo menos 27 vasos de cariátides conhecidos, todos distintos entre si. “Cada vaso conta uma história. São peças que revelam um universo simbólico rico, ainda em estudo”, afirma.

Algumas delas estavam ligadas a rituais, incluindo práticas simbólicas de memória coletiva com restos mortais cremados e misturados a bebidas cerimoniais.

Estatuetas retratam cenas da vida cotidiana. Foto: Katrine bentes/CCOM.
Peças retratam cenas marcantes da vida cotidiana ancestral. Foto: Katrine Bentes/CCOM.

Os vasos de cariátides estavam ligados a rituais funerários praticados pelos Tapajó, que incluíam práticas de endocanibalismo. Nesse processo, após o primeiro sepultamento, os restos mortais podiam ser cremados, e parte das cinzas era misturada a bebidas, colocadas nas peças de cerâmica e consumidas em cerimônias coletivas, como forma simbólica de manter a presença do ente falecido dentro da comunidade.”

Já as estatuetas retratam cenas da vida cotidiana, como mães com crianças no colo, bebês com o pé na boca, o pajé ou xamã em momentos de reflexão, mulheres segurando vasos, entre outras situações.

“A cerâmica funciona como registro histórico. Por meio dela compreendemos hábitos, crenças e a organização das sociedades que viveram aqui antes de nós”, destaca Jefferson.

Do apagamento cultural na colonização ao resgate e valorização da cerâmica tapajônica

Em documentos históricos, o padre João Felipe Bettendorf relatou em carta que os artefatos eram usados em rituais ligados à vida e à morte, como nascimentos, colheitas e cerimônias espirituais.


Na época, os Tapajó eram considerados “idólatras”, e suas peças associadas a práticas demoníacas. Durante a presença jesuítica na região, entre 1661 e 1665, muitas cerâmicas foram destruídas e sua produção proibida.


“Essas práticas foram consideradas ‘coisas do diabo’. Por causa disso, muitas peças foram destruídas e a produção foi proibida”, explica Jefferson.

Para o arqueólogo, compreender esse processo histórico é fundamental para entender por que parte da tradição cerâmica foi interrompida. Valorizar a memória e a ancestralidade é essencial para reconectar a população com as raízes culturais da região.

“É importante resgatar essas histórias, porque muitas delas não aparecem nos livros ou nas escolas. Houve um período de intensa destruição cultural. Muito desse conhecimento foi interrompido por conta do genocídio e do etnocídio indígena. Se isso não tivesse ocorrido, provavelmente teríamos mais histórias preservadas e saberíamos com precisão o significado de cada peça e de cada ritual representado”, afirma.

Semtur realiza visitas técnicas junto a pessoas e artesãos que trabalham com turismo histórico e cultural. Foto: Katrine Bentes.
Semtur realiza visitas técnicas junto a pessoas e artesãos que trabalham com turismo histórico e cultural. Foto: Katrine Bentes/CCOM


O secretário Emanuel Leite reforça que valorizar a história local fortalece a identidade cultural e amplia o potencial turístico da cidade.

Resgatar a cerâmica tapajônica é reconhecer nossa ancestralidade e compreender que a cultura do povo Tapajó faz parte da identidade de Santarém. Por isso, a Semtur realiza visitas técnicas junto a pessoas e artesãos que trabalham com turismo histórico e cultural, apoiando essas iniciativas, debatendo estratégias e buscando recursos para que projetos tão importantes como este deem resultados concretos, gerem renda e valorizem o que é nosso”, afirma.

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