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Trilha das Preguiças e Jardim de Vitórias-Régias fortalecem o Canal do Jari como atrativo de Turismo de Base Comunitária Autor: Katrine Bentes/ CCOM

Trilha das Preguiças e Jardim de Vitórias-Régias fortalecem o Canal do Jari como atrativo de Turismo de Base Comunitária

Katrine Bentes
Publicado em - Atualizado
Iniciativas lideradas por mulheres transformam natureza em trabalho, renda e valorização do território.

Entre casas de palafitas, vegetação exuberante e o canto constante dos pássaros, o Canal do Jari revela um modo de vida que transforma a floresta de várzea em oportunidade para experiências amazônicas autênticas. A Trilha das Preguiças, na comunidade Jari do Socorro, conduzida por Rosângela Siqueira, e o Jardim de Vitórias-Régias, no Alto Jari, liderado por Dulce Oliveira, expressam a força do turismo comunitário e vêm atraindo visitantes de diferentes partes do Brasil e do exterior, incluindo nomes como  Fábio Porchat, Gaby Amarantos e Fafá de Belém.

Trilha das Preguiças: imersão na floresta de várzea

A cerca de 35 minutos de lancha do centro de urbano, no distrito de Arapixuna, a comunidade Jari do Socorro guarda um refúgio onde a natureza dita o tempo. É ali que Dona Rosângela Siqueira Pinto, há mais de 30 anos recebe visitantes com o mesmo cuidado de quem acolhe amigos antigos. O acesso é apenas pelo rio e já na chegada o som da mata e o balanço das águas anunciam a experiência.

A casa de palafita, simples e cheia de personalidade, revela detalhes que contam histórias: placas e pinturas rústicas, ornamentos feitos à mão e, na sala, a imponente cabeça de jacaré que desperta curiosidade. Ao lado, a loja de artesanato expõe talentos locais. Na cozinha, entre café passado na hora e boas risadas, a equipe de visitantes se prepara para aventura: a Trilha das Preguiças.

Depois da acolhida, a trilha se inicia. São 20 a 30 minutos de imersão na várzea, em um percurso que muda conforme o ciclo do rio. Na cheia, a canoa desliza entre árvores alagadas. Na seca, a caminhada em terra firme permite observar com calma cada detalhe da floresta. A recomendação é simples: roupas confortáveis, sapatos fechados e disposição para desacelerar.

Pelo caminho, surgem árvores centenárias, como a imponente castanheira-sapucaia, com cerca de 400 anos. As preguiças nem sempre se mostram de imediato e isso faz parte do encanto. Já os macacos-de-mão-amarela costumam aparecer em grupos, agitando os galhos e arrancando sorrisos. Dependendo do clima, biguatingas, garças, socós, urutaus, gaviões, coruja-jacurutu, ciganas, canarinhos, andorinhas e até jacarés completam o cenário.

“Eu amo estar aqui, cercada pelos animais. Abro a janela e tenho a vista mais bela possível. Sou rica, e não é de dinheiro. Faço amigos e compartilho experiências. É muito prazeroso trabalhar com turismo”, afirma Dona Rosângela.

Entre março e julho, com o rio cheio, o passeio ganha contornos ainda mais marcantes. A trilha sai no valor de 30 reais por pessoa. A comunidade também oferece café da manhã, almoço e café da tarde mediante agendamento prévio pelo WhatsApp (93) 99141-1729 ou pelo Instagram @rosangela_trilha_das_preguicas.

Jardim de Vitórias-Régias: inovação e gastronomia sustentável

Seguindo pelo rio Amazonas, chega-se à comunidade do Alto Jari, onde Dulcecléia Oliveira cultiva vitórias-régias. O trabalho pioneiro começou como um jardim ornamental, mas logo ganhou novos contornos e chegou à cozinha. A planta aquática deixou de ser apenas um símbolo da Amazônia para se transformar em ingrediente, uma Planta Alimentícia Não Convencional (PANC) reinventada pelas mãos da anfitriã.

Flor, folha, caule e semente são utilizados de forma criativa em preparações que surpreendem o paladar: vinagrete, picles, batatinha-régia, tempurá, geleia, conserva, pizza, brownie, espaguete, paçoca, rabanada, quiche, moqueca, salada de flores, tapioca, licor, bombons, pudim, gelatina, pão e até pipoca. Ao todo, são 21 receitas desenvolvidas com foco no aproveitamento  integral, unindo sabor, inovação e sustentabilidade.

Dulce trabalha com turismo há 12 anos e  recebe cada visitante com brilho nos olhos, explica o cultivo, conta sua trajetória e abre espaço para fotos e memórias. “Aqui acontece de tudo, porque eu moro no tudo”, diz, sorrindo. Essa frase resume o espírito do lugar.

O espaço funciona com energia solar e dispõe de três quartos para hospedagem. A diária para casal é de R$ 300, com jantar e café da manhã inclusos. Passeios extras podem ser contratados à parte.

Foi a busca por qualidade de vida que trouxe Dulce ao Canal do Jari. Após se afastar da Marinha do Brasil por questões de saúde, mudou-se para a comunidade em 2013. No ano seguinte, começou a cultivar as vitórias-régias e a construir a casa que hoje recebe visitantes do Brasil e do exterior. Desde o início do projeto, mais de 10 mil pessoas já passaram pelo jardim.

A alta temporada vai de maio ao início de outubro, quando o nível do rio permite receber até 120 visitantes por dia. O passeio pode incluir ainda observação de aves e jacarés.

Em 2024, a maior seca dos últimos 50 anos afetou o cultivo. Atualmente, Dulce já trabalha na germinação das sementes e no replantio, determinada a ver o jardim florescer novamente.

As visitas acontecem de terça a sábado, das 10h às 14h, com duração média de uma hora por grupo. A taxa de visitação é de R$ 40, destinada à sustentabilidade e à manutenção do espaço, e inclui chá e degustação dos “belisquetes”. O agendamento pode ser feito pelo WhatsApp (93) 99182-9492 ou pelo Instagram @dulce_jardimvitoriaregia.

Projeto “Santarém: Turismo o Ano Inteiro”Com o objetivo de dialogar com os empreendedores, conhecer de perto as vivências oferecidas e desenvolver estratégias para reduzir os impactos da sazonalidade, a Prefeitura, por meio da Secretaria Municipal de Turismo (Semtur), realiza, desde fevereiro, visitas técnicas dentro do projeto “Santarém: Turismo o Ano Inteiro”. A iniciativa busca manter o fluxo de visitantes, fortalecendo o destino em todas as estações, com produção de conteúdo digital, divulgação promocional e capacitações por meio do FormaTur.

O secretário municipal de Turismo, Emanuel Júlio Leite, destaca a importância estratégica do Canal do Jari para o fortalecimento do turismo sustentável em Santarém.

“Visitamos o Canal do Jari e vivenciamos duas experiências verdadeiramente memoráveis. Trata-se de um roteiro consolidado, que merece reconhecimento pela coragem, inovação e protagonismo de mulheres empreendedoras que encontraram no turismo uma forma digna de gerar renda, valorizar a cultura ribeirinha e preservar o meio ambiente. A Semtur está comprometida em qualificar o atendimento, fortalecer o Turismo de Base Comunitária e apoiar iniciativas como essas, que promovem uma imersão autêntica nas comunidades e contribuem para que Santarém seja um destino com atrativos o ano inteiro.”

Santarém é marcada por dois grandes ciclos amazônicos que moldam a paisagem e renovam as experiências turísticas. No primeiro semestre, com o período de cheias, o volume das águas transforma rios e igarapés em verdadeiros corredores naturais, revelando uma floresta mais densa e exuberante. Já na vazante, as águas recuam e dão lugar a extensas faixas de areia, formando praias de água doce que se tornam cenário de lazer e contemplação. Essa dinâmica singular reforça o potencial do município para oferecer atrativos diversificados ao longo de todo o ano, consolidando-se como destino completo em qualquer estação.

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