Em Alter do Chão, no oeste do Pará, a tradição do Sairé se renova a cada ano sem perder a essência que atravessa gerações. Muito além dos shows e da disputa dos botos, é no rito religioso que uma das manifestações culturais mais tradicionais da Amazônia revela a força da fé, da memória e da identidade de seu povo.
A programação religiosa começa com a alvorada, que anuncia as boas-vindas ao dia que se inicia. Ao som dos cantos e instrumentos, a comunidade participa de um momento que marca o início de uma nova jornada de celebração e devoção.
Diariamente, quando o sol se põe, acontece a entrega do dia, depois o barracão recebe moradores e visitantes que chegam para acompanhar os rituais e se despedir do dia em oração. As ladainhas conduzem um dos momentos de maior devoção.


Em seguida, ocorre o ritual do beija-fita, que reúne os participantes em um gesto simbólico de fé e pertencimento. O macucauá também integra a programação religiosa, mantendo vivos elementos que fazem parte da história do Sairé.
No centro da praça, os mastros erguidos se transformam em um dos principais símbolos da celebração. Ao redor deles, os participantes realizam voltas que integram o ritual e reforçam o caráter coletivo da manifestação. Homens, mulheres, crianças e idosos se unem em uma mesma celebração, demonstrando que a tradição permanece viva porque é compartilhada entre gerações.
A beleza do Sairé está justamente nesse encontro de diferentes heranças culturais. A fé católica se entrelaça à ancestralidade indígena, formando uma manifestação singular, construída ao longo do tempo e preservada pela comunidade de Alter do Chão.


Para Maria da Paixão Ferreira, troneira do rito religioso, responsável pelos cuidados com a juíza e a Santíssima Trindade, é gratificante participar da corte.
“Meus pais faziam parte da corte do Sairé e eu me sinto honrada em há cinco anos participar do rito. Então, eu me sinto muito realizada por carregar comigo o levado do meu pai e da minha mãe”, disse.
Cada canto, cada gesto e cada volta ao redor dos mastros carregam significados que ultrapassam a celebração. São expressões de uma memória coletiva que continua sendo transmitida às novas gerações.
Enquanto as fitas coloridas balançam ao vento do Tapajós, o Sairé reafirma sua identidade. A festa que reúne milhares de pessoas também encontra sua força nos momentos de silêncio, oração e devoção.
Mais do que uma celebração cultural, o rito religioso do Sairé representa a permanência de uma tradição centenária que continua encontrando na fé comunitária a força para atravessar o tempo. Em Alter do Chão, passado e presente se encontram para manter viva uma história que pertence à Amazônia e ao seu povo.







A realização do Sairé 2026 – “Rêdawa Ancestral”, em Alter do Chão, reafirma a força da cultura, da tradição e da ancestralidade amazônica, tendo como destaques o Rito Tradicional e a apresentação oficial dos Botos Rosa e Tucuxi. O projeto é viabilizado por meio dos mecanismos de incentivo cultural da Lei Rouanet e do Semear – Programa Estadual de Incentivo à Cultura, que possibilitam a participação de importantes patrocinadores, como Equatorial Energia, Banpará, Coca-Cola, Amstel, Vivo, Caixa e Companhia Docas do Pará. A iniciativa conta ainda com o apoio da MANÁ Produções, Assessoria Cultural, Borari Produções, Secretaria de Estado de Cultura do Pará e Fundação Cultural do Estado do Pará, e tem realização da Prefeitura de Santarém e da Comunidade de Alter do Chão, fortalecendo uma das mais importantes manifestações culturais do Pará e promovendo a valorização e a salvaguarda dos saberes e tradições do povo Borari.