A tradição do Sairé ganhou um brilho especial nesta sexta-feira (18), com as apresentações mirins dos dois botos no Lago dos Botos, em Alter do Chão. Crianças que vivem e acompanham a manifestação cultural desde cedo tiveram a oportunidade de ocupar o espaço da festa e apresentar ao público o resultado de semanas e meses de preparação.
A programação começou com a apresentação da Companhia Boto Cor de Rosa Mirim, que levou ao Lago dos Botos o tema “Eu Amo Alter”. Com coreografias, alegorias e personagens que fazem parte do universo cultural do Sairé, as crianças protagonizaram um espetáculo marcado pela dedicação e pelo envolvimento das famílias.



De acordo com André Luiz, coordenador de itens do Boto Cor de Rosa, a preparação envolveu semanas de ensaios e dedicação das crianças.
“As crianças também tiveram uma preparação muito árdua e importante, com várias semanas de ensaio para apresentar um grande espetáculo. Não é só algo lúdico para elas, é algo realmente importante. Elas vêm se preparando coreograficamente e na maneira de fazer o espetáculo há bastante tempo”, destacou.


Para o coordenador, a participação das crianças também representa uma forma de manter viva a tradição do Sairé e garantir que os conhecimentos sejam transmitidos para as novas gerações.
“Eu acredito que esse repasse é de total importância, porque as crianças, principalmente aqui da vila de Alter do Chão, conhecem o Sairé desde que nascem. Essa parte profana, que é a disputa dos botos, é vista por elas como algo muito grande. Elas acabam crescendo com aquele sonho de ser uma cabocla, uma rainha, um menino quer ser o boto. Esse repasse é de total importância, porque é algo cultural que já nasce com eles”, afirmou André.
Além do trabalho realizado pelas equipes de coordenação e coreografia, o envolvimento dos pais também foi fundamental para a preparação da apresentação. Segundo André, as famílias participam diretamente da rotina dos pequenos artistas.
“Os pais são a principal base. Eles estão aqui nos itens mirins justamente para ajudar na logística, facilitar os ensaios, procurar os locais, dar assistência, trazer e buscar as crianças. Eles sempre estão acompanhando os filhos e estão por perto”, ressaltou.


Entre as crianças que participaram da apresentação estavam o Boto Animal e a Menina do Boto. A mãe dos dois, Luana Sadala, acompanhou de perto toda a preparação.
“Acompanhar os ensaios e toda a organização da apresentação mirim é sempre um grande desafio. É um trabalho um pouco cansativo, mas o resultado é uma emoção muito grande. Poder acompanhar e ver eles brilhando, se apresentando lindamente e dando o melhor deles é indescritível”, contou.
Segundo Luana, apesar de os filhos já participarem do projeto há quatro anos, cada apresentação traz uma nova emoção.
“Apesar de ser o quarto ano, todos os anos é uma emoção nova. É o mesmo friozinho na barriga, a mesma ansiedade para que tudo dê certo. No final, eles sempre entregam o melhor espetáculo”, disse.
Na sequência da programação, foi a vez do Tucuxi do Amanhã, que apresentou o tema “Maracá – Curumim, o ressoar da esperança”. A apresentação reuniu crianças em uma versão mirim dos personagens e elementos que fazem parte da tradição do Tucuxi.


Para o coreógrafo Bruno Pena, que participou pela primeira vez da preparação do grupo, os ensaios foram intensos e contaram com a participação dos pais.
“Os ensaios foram bem intensos, principalmente nos finais de semana, sem atrapalhar o processo escolar. Junto com os pais, fizemos todo um consenso. Foram meses intensos de preparação para que pudéssemos fazer uma linda apresentação para as pessoas que vieram assistir”, explicou.
Bruno também destacou a importância de envolver as crianças desde cedo na preservação da cultura.
“A importância realmente é passar o nosso conhecimento e o nosso saber para essas crianças, que serão o nosso futuro. É ali que futuramente teremos uma rainha, um curandeiro, um boto, uma cabocla. É muito importante fortalecer cada vez mais a nossa cultura com as crianças”, afirmou.


O próprio nome do projeto, Tucuxi do Amanhã, representa essa ideia de continuidade. As crianças acompanham as apresentações dos itens oficiais e, durante o projeto, têm a oportunidade de vivenciar de perto o universo do boto.
“Eles acompanham o Tucuxi, que são os itens oficiais. Para eles, estar ali é como se estivessem realizando aquele sonho. É muito bonito de ver, porque fazemos com que eles possam sentir isso no dia a dia. As alegorias também fazem com que se sintam ainda mais valorizados e tenham mais força para fazer tudo isso dar certo”, acrescentou o coreógrafo.
A participação das famílias também faz parte da rotina do Tucuxi do Amanhã. Patrícia Branches levou os dois filhos, que fizeram parte da apresentação das Mulheres Guerreiras e da dança “Desfeiteira”.


Para ela, acompanhar os filhos no projeto é motivo de alegria e orgulho.
“É sempre uma alegria estar participando com o Tucuxi do Amanhã. Meus filhos são os bebês do Tucuxi do Amanhã. Eles fizeram um trabalho belíssimo para a apresentação de hoje, e as crianças estão empolgadas, assim como as mães”, contou.
Patrícia explicou ainda que a participação dos filhos não se limita ao período do Sairé. O projeto funciona de forma contínua, contribuindo para a formação cultural das crianças durante todo o ano.
“O Tucuxi do Amanhã é um projeto contínuo de formação. Eles trabalham com oficinas durante o ano inteiro e, ao mesmo tempo, se preparam para a grande noite, que é o Sairé. É uma festa de união e partilha, então é muito bom para a criança ter essa experiência e, desde cedo, começar a se envolver nas coisas da comunidade”, destacou.


As apresentações mirins reforçaram o papel das novas gerações na continuidade do Sairé. No Lago dos Botos, crianças que cresceram acompanhando a festa puderam transformar sonhos em realidade e vivenciar, como protagonistas, uma tradição que atravessa gerações em Alter do Chão.
Mais do que reproduzir no palco os elementos da disputa dos botos, os projetos mirins contribuem para aproximar as crianças dos saberes, personagens, músicas, danças e símbolos que fazem parte da manifestação cultural. A participação desde cedo fortalece o vínculo com a comunidade e cria novas oportunidades para que a tradição continue sendo transmitida entre gerações.







A realização do Sairé 2026 – “Rêdawa Ancestral”, em Alter do Chão, reafirma a força da cultura, da tradição e da ancestralidade amazônica, tendo como destaques o Rito Tradicional e a apresentação oficial dos Botos Rosa e Tucuxi. O projeto é viabilizado por meio dos mecanismos de incentivo cultural da Lei Rouanet e do Semear – Programa Estadual de Incentivo à Cultura, que possibilitam a participação de patrocinadores como Equatorial Energia, Banpará, Coca-Cola, Amstel, Vivo e Companhia Docas do Pará. A iniciativa conta ainda com o apoio da MANÁ Produções, Assessoria Cultural, Borari Produções, Secretaria de Estado de Cultura do Pará e Fundação Cultural do Estado do Pará, e tem realização da Prefeitura de Santarém e da Comunidade de Alter do Chão. A programação fortalece uma das mais importantes manifestações culturais do Pará e contribui para a valorização e salvaguarda dos saberes e tradições do povo Borari.