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Levantação dos Mastros abre oficialmente a temporada do Sairé 2026
Foto: Ronaldo Ferreira/CCOM
Sairé 2026

Levantação dos Mastros abre oficialmente a temporada do Sairé 2026

Rito de fé e encontro comunitário reúne moradores, Corte do Sairé e visitantes em uma manhã de cantos, orações e caminhada pelas ruas de Alter do Chão

Victor Ribeiro

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Atualizado

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Ainda nas primeiras horas da manhã desta quinta-feira (17), a alvorada tomou as ruas de Alter do Chão e deu início a uma caminhada que, todos os anos, anuncia a chegada do Sairé. Entre cantos, orações e saudações, a comunidade elevou aos céus seus agradecimentos pela vida e pediu proteção para todos que participam dos festejos.  O momento também foi de intercessão à Santíssima Trindade e a Deus-Pai, reafirmando a fé que acompanha cada etapa do Rito Tradicional.

Na Praça 7 de Setembro, diante da igreja, o canto marcou o início da Alvorada e trouxe para o centro da celebração a espiritualidade presente no Sairé. O rito anuncia a proximidade da festa, mas também prepara o caminho para que ela aconteça, pedindo bênçãos para a comunidade, para a Corte e para todos que chegam a Alter do Chão para viver esse momento.

Após a Alvorada, o cortejo segue percorrendo a vila em busca dos juízes da festa. Pelas casas, os membros do Rito Tradicional são recebidos com cantos de folia e saudações. É também nesses encontros que a comunidade compartilha o café da manhã, transformando o percurso em momentos de acolhimento, convivência e partilha.

Para a juíza do Sairé, Iracilda Lobato, assumir essa função representa a continuidade de uma relação construída ao longo de muitos anos com a festa.

“Pra mim, o Sairé tem uma importância imensurável. Estou no Sairé há muitos anos, fui mordoma, cozinheira e hoje juíza. Carregamos essa responsabilidade com a Santíssima Trindade, mantendo viva a essência do Sairé. Queremos que seja uma grande festa, que todos se sintam acolhidos e parte desse momento tão importante”, destacou.

Depois da Alvorada e da passagem pelas casas dos juízes, a Corte do Sairé se organiza no Barracão para dar início à Procissão dos Mastros. Marcada por rezas, cantos e pela presença da comunidade e dos visitantes, a caminhada seguiu até a Ponta da Gurita, também conhecida como Praia do Cajueiro, onde os mastros do Juiz e da Juíza estão guardados desde o sábado anterior.

É de lá que os mastros retornam ao Barracão, conduzidos pela própria Corte. O mastro do Juiz é levado por seus mordomos, enquanto o da Juíza é conduzido por suas mordomas. A caminhada reúne diferentes gerações em torno de um dos símbolos centrais do Sairé, com forte participação comunitária.

“Sair em cortejo, depois do café nas casas do Juiz e da Juíza, representa um momento muito simbólico. Cada mastro tem murtas, que demoram para perder o verde, e ainda nos unimos para ornamentar os mastros com frutas, representando nossa fé e nossa união durante o festejo”, destacou Luciene Santos, rezadeira.

“Estar aqui e viver esse momento é um sentimento que se sobrepõe a tudo. É inesquecível acompanhar o início dessa grande festa pelo Rito Tradicional, que reúne fé, celebração e a valorização da memória do povo Borari. É um momento que nos lembra a força dessa cultura e da comunidade que mantém o Sairé vivo”, destacou Zé Maria Tapajós, prefeito de Santarém.

“Há gerações, o Sairé vem sendo feito por muitas mãos. É tão simbólico porque, aqui, o Rito Tradicional é reconhecido como parte da nossa vida, da nossa essência. A Busca dos Mastros também simboliza isso: a vida que flui da floresta, dos rios e chega até a comunidade”, destacou Osmar Vieira, coordenador do Sairé. 

Antes da Levantação dos Mastros, o hasteamento das bandeiras marcou o momento cívico da festa. Na Praça do Sairé, autoridades, lideranças políticas e comunitárias participaram do ato, que contou também com pronunciamentos do primeiro e do segundo cacique de Alter do Chão. A entoação dos hinos pátrios integrou a cerimônia, simbolizando o reconhecimento institucional de uma tradição que nasce e se fortalece na comunidade.

Na sequência, teve início o Rito de Levantação dos Mastros. De um lado, o grupo do Juiz, formado pelo mordomo e por populares que participaram da preparação e condução do mastro. Do outro, o grupo da Juíza, reunindo suas mordomas e mulheres da comunidade e do público, responsáveis pela ornamentação.

Os mastros foram enfeitados com folhagens de murta, espécie que mantém o verde mesmo sob o calor dos dias de festa, além de frutas tropicais. Na ponta de cada um, são colocadas uma garrafa de cachaça e a bandeira do Divino Espírito Santo. Cada mastro também possui uma devoção: o do Juiz é dedicado a São José, enquanto o da Juíza é dedicado a Nossa Senhora.

Depois de preparados, os dois grupos se reuniram em torno dos mastros para o momento mais esperado do rito: a levantação. Em meio à torcida, alegria e entusiasmo, homens e mulheres disputaram simbolicamente para ver qual mastro seria erguido primeiro. A brincadeira mobiliza a comunidade e dá ao ritual um caráter festivo, sem afastá-lo de sua dimensão de fé e devoção.

“É muito emocionante ver esse momento acontecer e perceber quantas pessoas se reúnem em torno de um mesmo sentimento. Cada detalhe, cada canto, cada mão que ajuda a ornamentar e levantar esses mastros carrega um pouco da história e da fé do povo de Alter do Chão. O Sairé é feito assim: com participação, com devoção e com o coração de uma comunidade que vive essa tradição”, destacou a secretária municipal de Cultura, Priscila Castro.

Após a levantação, a Corte do Sairé realiza o cortejo ao redor dos mastros, que simbolizam a fartura, as graças recebidas e a conexão com o sagrado. Fincados na terra e apontados para o céu, eles também expressam essa relação entre o território e o divino, entre aquilo que nasce da terra e aquilo que se eleva em forma de fé.

“Para nós, do Rito Religioso, os mastros representam a fartura e a partilha. Até mesmo quando escolhemos os mastros, primeiro pedimos permissão dos nossos ancestrais para retirá-los e depois replantamos inúmeras outras árvores, para dar continuidade. É uma união que nos fortalece e expressa a nossa cultura”, destacou Carlos Camargo, capitão da Corte do Sairé.

A realização do Sairé 2026 – “Rêdawa Ancestral”, em Alter do Chão, reafirma a força da cultura, da tradição e da ancestralidade amazônica, tendo como destaques o Rito Tradicional e a apresentação oficial dos Botos Rosa e Tucuxi. O projeto é viabilizado por meio dos mecanismos de incentivo cultural da Lei Rouanet e do Semear – Programa Estadual de Incentivo à Cultura, que possibilitam a participação de importantes patrocinadores, como Equatorial Energia, Banpará, Coca-Cola, Amstel, Vivo e Companhia Docas do Pará. A iniciativa conta ainda com o apoio da MANÁ Produções, Assessoria Cultural, Borari Produções, Secretaria de Estado de Cultura do Pará e Fundação Cultural do Estado do Pará, e tem realização da Prefeitura de Santarém e da Comunidade de Alter do Chão, fortalecendo uma das mais importantes manifestações culturais do Pará e promovendo a valorização e a salvaguarda dos saberes e tradições do povo Borari.

 

Créditos da publicação

Editor(a)

Jéssica Luz

Assessoria de Comunicação

Para informações sobre esta publicação, entre em contato pelo e-mail ascom@santarem.pa.gov.br.