Logo cedo, o Barracão do Sairé começou a reunir moradores e participantes para celebrar mais um ano da tradição. Entre cantos, orações e a presença da Corte do Sairé, a comunidade se preparou para a Busca dos Mastros, realizada neste sábado (12) em Alter do Chão. O momento antecedeu a saída rumo à praia da Arioca pelo rio Tapajós e trouxe para o centro da celebração a memória daqueles que mantêm vivo o rito e a força da tradição Borari.
No Barracão, o encontro foi marcado pela espiritualidade do povo Borari, pela memória dos antepassados e pela presença daqueles que hoje dão continuidade à tradição. É também nesse momento que o alimento é abençoado e compartilhado entre os participantes, fortalecendo os laços comunitários que fazem parte da celebração.


Do Barracão, a Corte seguiu em direção à praia do CAT, acompanhada pelo símbolo do Sairé, que representa a fé na Santíssima Trindade. Na praia, os participantes embarcaram em barcos e canoas e seguiram pelo rio Tapajós, formando uma grande corrente sobre as águas em direção ao ponto onde os mastros os aguardavam.
O percurso reúne diferentes dimensões do Sairé: a fé, a ancestralidade, a relação com o território e a participação comunitária. Em cada etapa, a tradição se manifesta não apenas como celebração, mas como uma forma de manter vivos os vínculos entre o povo Borari, a floresta e o rio.

“A Busca dos Mastros é uma das primeiras etapas e tem um valor simbólico muito grande para essa festa. Precisamos manter essa tradição viva nos nossos corações, no coração dos jovens e de toda a comunidade. Ela nos lembra de quem somos e o quanto nos dedicamos para dar continuidade”, destacou Dalva de Jesus Vieira, saraipora e guardiã do Sairé.

Na praia da Arioca, dois grandes grupos, divididos entre homens e mulheres, entraram na mata e seguiram pela trilha até o local onde estavam os mastros previamente escolhidos. Esse momento de escuta e conexão com o território expressa o cuidado e o respeito que o Rito Tradicional mantém com o território floresta, fonte de alimento e sustento da vida.
“Os mastros têm um significado simbólico muito grande. Quando carregamos coletivamente eles e chegamos ao Barracão, já com as frutas e a envira, estamos representando a fartura, a nossa fé, a nossa alegria e a nossa memória. Por isso, esse momento de vir buscar o mastro é tão importante. É também quando levamos as bênçãos que o Sairé traz para todos nós”, destacou Marlena Soares, membro do Rito Tradicional e das folianas.


Quando os dois grupos encontram os mastros, começa outro momento de celebração. Eles são carregados coletivamente, em meio à fé e à alegria dos participantes, até as canoas que farão o transporte pelo rio Tapajós. De lá, seguem até a praia do Cajueiro, onde permanecerão durante cinco dias.
“Depois de uma procissão linda, nos reunimos em um momento em que se pede licença para entrar na mata. É um momento de muita ancestralidade, de conexão com a natureza e de manutenção e resistência da cultura popular e Borari. É uma manifestação cultural do Brasil que acontece aqui em Alter do Chão. É uma grande honra participar e estar presente”, destacou a secretária municipal de Cultura, Priscila Castro.


Para o vice-prefeito de Santarém, Carlos Martins, a Busca dos Mastros traduz parte da essência do Sairé e da relação da celebração com o território.
“O respeito aos rios, à floresta e à nossa identidade faz parte do rito. E o Sairé é isso: uma grande homenagem à memória do povo local e dos nossos ancestrais. Foi um momento lindo, com muitos barcos enfeitados e em festa, reunidos em uma grande energia de celebração. A cada ano, nosso Sairé cresce, junto ao Festival dos Botos, atraindo muitos visitantes”, destacou.


Entre visitantes, turistas e moradores da região, a Busca dos Mastros é uma experiência que apresenta o Rito Tradicional, reunindo diferentes pessoas em torno de uma tradição que atravessa gerações. Ao acompanhar o rito, o público se aproxima de uma celebração que tem na floresta, no rio e na comunidade os elementos que dão sentido à sua continuidade.
“O mastro é símbolo de toda a nossa fartura e marca o início dessa manifestação cultural tão importante para a região e para a Amazônia. O Sairé começa exatamente com esse momento. É uma etapa muito especial e que enche nossos corações de alegria”, destacou Terezinha Amorim, historiadora.


A realização do Sairé 2026 – “Rêdawa Ancestral”, em Alter do Chão, reafirma a força da cultura, da tradição e da ancestralidade amazônica, tendo como destaques o Rito Tradicional e a apresentação oficial dos Botos Rosa e Tucuxi. O projeto é viabilizado por meio dos mecanismos de incentivo cultural da Lei Rouanet e do Semear – Programa Estadual de Incentivo à Cultura, que possibilitam a participação de importantes patrocinadores, como Equatorial Energia, Banpará, Coca-Cola, Amstel, Vivo e Companhia Docas do Pará. A iniciativa conta ainda com o apoio da MANÁ Produções, Assessoria Cultural, Borari Produções, Secretaria de Estado de Cultura do Pará e Fundação Cultural do Estado do Pará, e tem realização da Prefeitura de Santarém e da Comunidade de Alter do Chão, fortalecendo uma das mais importantes manifestações culturais do Pará e promovendo a valorização e a salvaguarda dos saberes e tradições do povo Borari.