Na noite deste sábado (19), o Lago dos Botos se transformou em um grande espaço de celebração da cultura e da tradição amazônica. Protagonizada pelos botos Cor de Rosa e Tucuxi, a programação do Festival dos Botos reuniu um grande público, que tomou conta do espaço nas cores verde e rosa para acompanhar os espetáculos que exaltaram a história, a ancestralidade e os saberes dos povos do Tapajós.
O Festival dos Botos, ao longo dos anos, tornou-se uma tradição que atravessa gerações, fortalecendo a identidade cultural da Vila de Alter do Chão e mantendo vivas as histórias, os saberes e as encantarias do povo amazônico.



O Boto Cor de Rosa abriu a noite de apresentações levando ao Lago dos Botos o tema “Tapajônica – A História Não Contada”. O espetáculo mergulhou na oralidade dos povos do Tapajós para apresentar histórias que atravessam gerações e que, muitas vezes, não estão registradas nos livros, mas permanecem vivas na memória e na voz daqueles que habitam o território.
A apresentação destacou a relação profunda entre os povos, as águas e as matas, reconhecendo a natureza como parte fundamental da criação, da existência e da identidade amazônica.
“A gente trouxe o povo Borari como protagonista na história de Alter do Chão, reforçando também a importância de preservar os saberes ancestrais. É uma felicidade mostrar no lago todo o resultado da nossa preparação”, destacou Tiago Vasconcelos, presidente da Associação Folclórica Boto Cor de Rosa.



Ao longo do espetáculo, o Boto Cor de Rosa também exaltou os ritmos, os saberes e a rotina daqueles que têm nas águas seu caminho e seu modo de vida. A apresentação buscou reforçar que, nas águas sagradas do Tapajós, o rio é território de memória, amor e sabedoria.
“A região do Baixo Tapajós abriga 14 povos indígenas, que contam muitas histórias. E durante a nossa apresentação buscamos trazer um apanhado de memórias, tanto na apresentação falada quanto na comunicação gestual e coreografada. O sentimento é de dever cumprido”, destacou Theo Neves, apresentador do Boto Cor de Rosa.
O espetáculo também trouxe para o centro da narrativa a força do rio como elemento que conta histórias e atravessa gerações. Remar pelas águas do Tapajós é, na apresentação, enfrentar o banzeiro e, ao mesmo tempo, navegar pela essência de um povo que tem sua identidade profundamente ligada ao rio.



Na sequência, o Boto Tucuxi entrou na arena com o tema “Iburari, Ocara Sagrada”, apresentando ao público uma narrativa sobre a história e a identidade do povo Borari.
A proposta do grupo parte de Iburari, denominação histórica associada ao território onde se consolidou o aldeamento que deu origem à atual Vila de Alter do Chão, para abordar a formação desse povo e as transformações vivenciadas ao longo do tempo.
O espetáculo trouxe como elemento central a Ocara Sagrada, compreendida como espaço de convivência, celebração e transmissão de conhecimentos. A partir desse conceito, o Tucuxi estabeleceu um diálogo entre diferentes momentos da história Borari, incluindo o período colonial e a permanência de sua identidade cultural, valorizando a continuidade dos saberes e das tradições entre as gerações.
“Transformamos em força a memória afetiva de pessoas que nos deixaram e passaram pelo Tucuxi. Somos muito apaixonados pelo que fazemos e trazer esse amor para o Lago dos Botos faz toda a diferença”, destacou Ana Maria, presidente do Grupo Sociocultural Boto Tucuxi.



A apresentação do Boto Tucuxi também celebrou a vida e a fartura, destacando a participação coletiva na preservação da força ancestral. Por meio do conjunto folclórico, diferentes gerações se reuniram em torno do carimbó e das tradições de Iburari, reafirmando a presença da cultura Borari e a importância da continuidade desses saberes.
“Hoje tenho um lago para sentir meu amor. São anos de dedicação, envolvimento e muito amor. Carregamos o legado daqueles que passaram pelo Boto Tucuxi e ainda aqueles que irão chegar. Muita gratidão”, destacou Daniela Tapajós, cabocla Borari.
Para a secretária municipal de Cultura, Priscila Castro, o Festival dos Botos representa a força da cultura amazônica e a capacidade do Sairé de manter vivas histórias que atravessam gerações.
“O Festival dos Botos é uma celebração daquilo que somos. É a nossa memória ganhando voz, forma, música e movimento. Quando Cor de Rosa e Tucuxi entram no Lago dos Botos, eles não apresentam apenas um espetáculo: apresentam histórias, saberes, crenças e identidades que pertencem ao nosso povo. O Sairé tem essa força de transformar a tradição em experiência viva, aproximando as novas gerações de uma cultura que precisa ser conhecida, valorizada e preservada”, destacou.
A noite no Lago dos Botos reafirmou, assim, a força do Festival como espaço de expressão da cultura amazônica. Entre cores, música, dança, carimbó, encantarias e narrativas sobre o território, Cor de Rosa e Tucuxi levaram ao público diferentes formas de contar e vivenciar a história de Alter do Chão e dos povos que construíram essa identidade.
Mais do que uma disputa entre dois grupos folclóricos, o Festival dos Botos se consolidou como uma manifestação que reúne memória, pertencimento e transmissão de saberes. No encontro entre diferentes gerações, a tradição ganha novos intérpretes e continua sendo vivenciada como parte da identidade cultural da comunidade.
A realização do Sairé 2026 – “Rêdawa Ancestral”, em Alter do Chão, reafirma a força da cultura, da tradição e da ancestralidade amazônica, tendo como destaques o Rito Tradicional e a apresentação oficial dos Botos Rosa e Tucuxi. O projeto é viabilizado por meio dos mecanismos de incentivo cultural da Lei Rouanet e do Semear – Programa Estadual de Incentivo à Cultura, que possibilitam a participação de patrocinadores como Equatorial Energia, Banpará, Coca-Cola, Amstel, Vivo e Companhia Docas do Pará. A iniciativa conta ainda com o apoio da MANÁ Produções, Assessoria Cultural, Borari Produções, Secretaria de Estado de Cultura do Pará e Fundação Cultural do Estado do Pará, e tem realização da Prefeitura de Santarém e da Comunidade de Alter do Chão. A programação fortalece uma das mais importantes manifestações culturais do Pará e contribui para a valorização e salvaguarda dos saberes e tradições do povo Borari.